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domingo, 21 de novembro de 2010

Novas regras de imigração passam a valer a partir de janeiro.

Em cinco anos, taxa de desemprego no país passou de 3% para 13,5%. Novas regras de imigração passam a valer a partir de janeiro.

O goiano Gustavo Sacipieri, 33, sustenta a família vendendo produtos cobiçados pelos brasileiros que moram na Irlanda: feijão, achocolatado, guaraná, picanha. Todos os dias, ele e sua equipe acordam cedo para carregar item por item nas três vans da empresa criada por ele - a "Brasil na Van" - e saem por uma rota que percorre cidades em todo o todo o país e aproximadamente 860

Desde 2008, quando a Irlanda começou a sentir os efeitos da crise financeira internacional, Gustavo já viu suas vendas caírem 50%. Para manter o negócio, diz ele, usou o que chama de "flexibilidade" de brasileiro: além da entrega de comida, aproveita o trajeto do veículo fazer serviços de transferência bancária, oferecer cupons promocionais e até vender consórcio para carro, a ser contemplado por aqui. Planeja, para breve, vender também consórcios de imóveis.

"Não me importo de me adaptar e até fazer cortes se a situação pede. O irlandês não está acostumado a isso porque não tem a vida que a gente tem aí no Brasil, a instabilidade. Aqui é impressionante o tanto que o governo ajuda os irlandeses", opina o ex-metalúrgico, que chegou com a esposa ao país em 2006 - sem visto e sem falar inglês - para trabalhar como pintor. Hoje tem passaporte italiano e nenhum plano de ir embora. "Para quem já se estabilizou por aqui, ainda vale a pena ficar", diz.

Seus clientes, na maioria, são famílias brasileiras com pouca qualificação profissional que deixaram a terra natal para trabalhar em subempregos tradicionalmente rejeitados pelos irlandeses: dessossadores em frigoríficos, operários de construção civil, realizadores de pequenos serviços. A estimativa do Ministério das Relações Exteriores é de que, em 2009, 15 mil brasileiros estavam na Irlanda. Goiás liderou o movimento: muitos trabalhadores do estado chegaram à ilha nos últimos anos para trabalhar em frigoríficos e na construção civil.

Foi o caso de Waldeir Ferreira dos Santos, 31 anos, que volta definitivamente para Anápolis (GO) neste sábado (20), depois de quase sete anos morando em Ennis. Desde então, ele passou o tempo trabalhando muito e até arrumou uma noiva, também goiana, que volta com ele. O desânimo com o sonho irlandês veio depois que a construtora em que trabalhava faliu, há um ano e meio. Sem emprego fixo, passou a ajudar Gustavo nas entregas.

"Quando eu comecei a trabalhar com ele (na van) eu já estava com plano de ir embora, a firma já tinha acabado, eu já tinha desanimado. Quando eu cheguei era muito bom: faltava mão de obra e tinha trabalho todo dia, nunca faltava oportunidade de receber 60 euros por dia", relembra.


  • Escassez de emprego


Hoje, com a economia irlandesa retraída, a realidade é bem diferente. Apenas em 2010, 1,1 mil empresas fecharam suas portas. Em apenas cinco anos, a taxa de desemprego passou de 3% para 13,5%. Uma em cada três pessoas com menos de 30 anos está desempregada.


Resultado: vagas antes desprezadas por irlandeses passam a ser consideradas alternativas de trabalho - já que a tendência é que a Irlanda corte cada vez mais os benefícios "polpudos" tradicionais no país, como seguro-desemprego, como parte dos cortes fiscais que precisará fazer para sanear a economia.

"Às vezes você está em uma roda entre amigos e encontra um irlandês que está desempregado e você, brasileiro, empregado. Não é legal você abordar esse assunto, fica um clima chato", conta Thiago Silva, que trabalha em Dublin há dois anos como assistente de cozinha.

"Tem duas moças irlandesas que começaram a trabalhar comigo como garçonete e isso é uma coisa diferente. Você começa a ver mais irlandeses nesse tipo de trabalho que não se via antes, em atendimento, loja de roupa, caixa", diz Silva, que já teve redução nas horas de trabalho semanais por conta da queda na demanda.

A partir de janeiro, passam a valer novas regras de imigração: matriculados em cursos de inglês poderão ficar por um limite máximo de três anos. Ficar mais só fazendo cursos de graduação, que são bem menos acessíveis: não custam menos de 20 mil euros por ano.

"Antigamente fazendo curso você podia ficar o tempo que quisesse", diz o publicitário paulista Heitor Bonfim, 27 anos, que faz mestrado em Dublin desde abril deste ano e trabalha 20 horas por semana como chefe de cozinha. "Conheço muita gente que está voltando, não sei se por causa da crise, mas porque as regras da imigração vão apertar", diz.

A desvalorização imobiliária e o excesso de imóveis vazios, decorrentes da crise, tiveram impacto positivo em seu custo de vida. "Eu mudei recentemente para um apartamento bem maior e melhor localizado, pelo preço de um bem pior", diz.


  • Mudança de perfil


Não significa, no entanto, que brasileiros estejam banidos das terras irlandesas. Acabou-se, no entanto, o tempo do subemprego farto.

"Isso afeta muito os brasileiros porque a maioria é informal. É compreensível, porque o país quer ajudar os irlandeses e não as pessoas de fora. Não deixo de dar razão para o próprio irlandês. Tem muito irlandês falido", diz Gustavo, da Brasil na Van.

"Hoje não dá para eu pensar em trazer um parente amigo que não fale inglês e tentar arrumar um emprego. Precisa falar bem e dirigir. No passado, o empresário dirigia 60 km para buscar alguém para trabalhar que não abrisse a boca para falar uma palavra em inglês o ano inteiro", afirma Roberto Camargo da Silva, que lidera comunidade brasileira da Irlanda e paga faculdade para o filho mais velho, que estuda engenharia aeronáutica na Universidade de Limerick.

Para John O'Reilly, irlandês aposentado aficcionado pelo Brasil e que há anos presta serviço voluntário de orientação à comunidade brasileira, o bom momento econômico do Brasil faz com que a Irlanda deseje atrair brasileiros dispostos a gastar dinheiro no país. "Quem veio para cá com intenção de se manter com emprego, sem dinheiro no bolso ou no banco, pode enfrentar dificuldade. Mas o país busca jovens para estudar e fazer graduação aqui, já que agora o Brasil que é rico", diz O'Reilly.



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sábado, 20 de novembro de 2010

Hora de trocar o Reino Unido pelo Brasil?


Hora de trocar o Reino Unido pelo Brasil?

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Após crise, 'pequeno Brasil' na Irlanda tem 50% menos brasileiros
Mesmo com a crise, Gisele não quer 'trocar o certo pelo duvidoso'

O agravamento da crise econômica na Irlanda está interrompendo os planos de brasileiros que escolheram o chamado "Tigre Celta" como destino de imigração.

A crise, que começou a atingir o país em 2008, vem afetando principalmente os imigrantes ilegais, segundo Parkieson de Castro, da Embaixada brasileira em Dublin.

"Quem está em situação ilegal, que veio procurando emprego mas não encontra, está fazendo o caminho de volta. Já as pessoas estabelecidas aqui, com esposas ou maridos irlandeses, tendem a ficar, a não ser que surja uma boa oportunidade no Brasil", diz.

O Ministério das Relações Exteriores do Brasil estima que há aproximadamente 20 mil brasileiros vivendo na Irlanda.

A embaixada não tem estatísticas oficiais do numero de brasileiros retornando para casa.

Mas as estimativas apontam que em Gort, a cidade que um dia ficou conhecida como o "pequeno Brasil" na Irlanda, mais de 50% população de brasileiros já retornaram para o país natal desde o início da crise.

No auge do boom irlandês, quase metade da população de Gort era formada por brasileiros. Agora, de acordo com o sociólogo Frank Murray, as ruas e casas vazias são sinais claros do êxodo brasileiro.

Se antes a população brasileira em Gort chegava a quase 2 mil, as estimativas são de que agora esse número caiu pela metade.

A estatística só não caiu mais porque Gort ainda continua a receber brasileiros que antes viviam em outras regiões da Irlanda onde a política para imigrantes está ficando mais restrita.

"A dificuldade é que muitos brasileiros não têm documentos e, diferentemente dos irlandeses, não têm direito a benefícios sociais e assistência financeira se ficarem desempregados", diz Murray.

Frigorífico que atraiu brasileiros hoje é um galpão abandonado

"Os brasileiros estão entendendo que as coisas não vão melhorar aqui, e é o mesmo para todos os imigrantes. Muitos poloneses também foram embora. A ficha esta caindo e eles estão percebendo que têm de voltar, porque aqui não existem mais condições."

Abandono

Um frigorífico que empregava muitos brasileiros no passado é agora apenas um prédio abandonado. No muro da construção, ainda restam as placas escritas em inglês e português.

A única loja de produtos alimentícios brasileiros que ainda mantém as portas abertas vende hoje 40% a menos do que já chegou a negociar.

Gislene é uma das poucas funcionarias que ainda trabalha na loja. Na Irlanda há três anos, ela lembra que nos bons tempos o estabelecimento chegou a ter quatro funcionários, além da dona. Hoje, só sobraram duas empregadas.

Mesmo com os sinais da crise e o declínio no volume de trabalho, Gislene mantém uma atitude otimista em relacão à Irlanda e diz que pretende ficar no país enquanto tiver trabalho. "Para que a gente vai largar o certo pelo duvidoso?", questiona Gislene.

Ela acredita que muitos dos brasileiros que estão indo embora já atingiram os seus objetivos. Ela acha que os que não conseguiram fazer o pé-de-meia e estão retornando ao Brasil com a esperança de uma situação melhor podem se decepcionar.

"Já ouvi falar que o Brasil está bom, que o Brasil melhorou, que está bom de emprego. Mas muitas pessoas estão esquecendo que o Brasil é bom para quem tem escolaridade, porque hoje em dia até para trabalhar de auxiliar de limpeza você precisa de estudo", diz.

"A maioria das pessoas que estão aqui não tem um alto nível de escolaridade, então eu acho melhor ficar e desenvolver o inglês para, quando for embora, ir com uma garantia de um objetivo melhor no Brasil."

Placa bilíngue mostra como o português se tornou comum na Irlanda

Crise

A Irlanda é um dos países mais afetados pela crise econômica na Europa. Após um período de elevado ritmo de crescimento econômico, o país foi do boom ao desastre financeiro em um espaço de apenas três anos.

Desde 2008, o preço dos imóveis caiu entre 50% e 60% e os recursos para ajudar o sistema bancário são estimados em 45 bilhões de euros (mais de R$ 100 bilhões).

A União Europeia (UE) e o Fundo Monetário Internacional (FMI) estão negociando um pacote de ajuda que pode chegar a US$ 110 bilhões, mas o governo tem relutado em aceitar o dinheiro.

Entretanto, o ministro irlandês das Finanças, Brian Lenihan, admitiu que o país vai precisar de ajuda externa para resolver sua grave crise fiscal e a alta dívida dos bancos.

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